92 anos sem Padre Cícero: curiosidades sobre a morte do santo popular
Casarão da rua São José tem oito janelas na fachada, uma delas era a favorita do Padim, onde costumava ficar para conversar com os devotos. Paulo Henrique Ro...
Casarão da rua São José tem oito janelas na fachada, uma delas era a favorita do Padim, onde costumava ficar para conversar com os devotos. Paulo Henrique Rodrigues Num fundo de rede, como se costuma dizer no Sertão, foram assim os últimos dias de vida de Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, em 1934, aos 90 anos. Cego de um olho e enxergando pouquíssimo de outro, mesmo após cirurgia de catarata a preço que lhe exigiu fazer empréstimo, o padre vivia recolhido no casarão da rua São José, impedido de ver a cidade que fundou em 1911 e governou em dois momentos: da data de emancipação ao fim de 1912 e ainda de 1914 a 1927. Tema de filmes, livros e peças, o Padim teve seus últimos dias acompanhados atentamente por médicos, pelas beatas que moravam com ele, como Joana Tertulina de Jesus, a Beata Mocinha, e por afilhados, a exemplo das professoras Generosa Alencar e Amália Xavier. Essas testemunhas enriqueceram biografias com detalhes: o sofrimento com doenças, as últimas palavras no leito de morte e a necessidade de dois caixões no velório. Morreu de quê? Documento antigo elaborado pela Igreja Católica traz a seguinte informação sobre a causa da morte do Padre Cícero: “faleceu de intestino”. Biografias sobre o sacerdote também apontam problemas digestivos como o principal motivo. Frederico Pernambucano de Mello afirma que, em meados de 1934, após cirurgia de catarata sem sucesso, a saúde dele piorou. “Um desfalecimento orgânico irreversível instalou-se a partir da função digestiva, chegando ao ponto de obstruir-lhe por inteiro os intestinos nos últimos dias de vida”, escreveu o pesquisador pernambucano no livro “Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros”, que conta a história do sírio-libanês que era secretário do Padim. Padre Cícero dentro de um dos caixões utilizados Acervo de Renato Casimiro e DANIEL WALKER Últimas palavras A madrugada de 20 de julho de 1934 foi de vigília no casarão da Rua São José, no centro de Juazeiro do Norte. Sem alternativas na medicina, a morte era questão de horas. Dentro e fora da casa, havia gente reunida, rosários à mão, rezando. Deitado, o Padim teria balbuciado as últimas palavras, conforme escreveu Lira Neto em “Padre Cícero: poder, fé e guerra no Sertão”: “No Céu, eu rogarei a Deus por todos vocês...” e ainda “meu pai, meu pai, meu pai...”, essas teriam sido as derradeiras frases ditas por ele. A primeira foi ouvida pelos presentes na casa. Já a segunda, apenas pela afilhada Amália Xavier de Oliveira, que se adiantou aos demais, agachou-se aos pés da cama e pôs o ouvido bem perto da boca do Padre Cícero, escreveu o jornalista cearense. Romeiros chegam a Juazeiro do Norte para homenagem aos 92 anos da morte do Padre Cícero Dois caixões Estima-se que o velório tenha durado 30 horas, contou com dois caixões e o cortejo reuniu 60 mil pessoas. O historiador Roberto Júnior, criador do perfil nas redes sociais Cariri das Antigas, explica mais essa curiosidade: “Sim, ele teve dois caixões. É porque na época a gente não tinha essa questão das urnas feitas em escala industrial. Elas eram, digamos, personalizadas. Era feita na medida do falecido. E o que aconteceu com ele foi que, diante da causa mortis, a gente teve um processo de degradação do corpo um pouco mais acelerado e aí, diante do inchaço, foi obrigada a confecção de uma segunda urna porque a primeira já estava com os limites extrapolados". Padim ressuscitado Em entrevista à TV Verdes Mares Cariri concedida em 2024, quando da celebração dos 90 anos da morte do Padim, o pesquisador Renato Casimiro contou duas curiosidades, uma delas corroborada por uma histórica. O farmacêutico José Geraldo da Cruz, que se tornaria prefeito de Juazeiro do Norte, durante o velório, organizou uma exibição do caixão num dos janelões do casarão da rua São José, assim quem estava na via poderia ver o corpo, causando comoção. “O Padim Ciço ressuscitou”, alguém teria gritado, mas era apenas um movimento sem vida do braço direito do Padim, que havia caído por causa do manuseio. Fieis acompanham o velório do Padim Acervo de Renato Casimiro e DANIEL WALKER Romarias e visitas a Juazeiro Após o sepultamento no altar na Capela do Socorro, ao lado do cemitério mais antigo de Juazeiro do Norte, o Dia de Finados virou romaria em Juazeiro do Norte, com milhões fazendo questão de visitar o túmulo. Além da lápide onde os católicos costumam tocar objetos para que se tornem bentos, a cidade tem outros espaços dedicados à memória do santo popular que já é considerado oficialmente um servo de Deus pela Igreja Católica, com processo de beatificação em análise no Vaticano. Casarão da rua São José Localizado no centro de Juazeiro do Norte, o Casarão da rua São José tem oito janelas na fachada, uma delas era a favorita do Padim, onde costumava ficar para conversar com os devotos. Proibido de celebrar missas, fez da janela um púlpito. Historiadores afirmam que o Padim falava baixo, característica que exigia silêncio e concentração dos católicos. Outro hábito era usar o vocativo "amiguinho" quando conversava com os romeiros. O Casarão da rua São José era a casa do Padim e reúne objetos que pertenceram a ele, inclusive animais empalhados, que estão entre os presentes recebidos por romeiros. O local é administrado pela Ordem dos Salesianos. Aberto de segunda a sexta (7h30 às 12h e 14h às 17h) e também sábado (7h30-12h), com entrada gratuita. Zé geraldo de rooupa branca, em pé numa das janelas do atual museu, enquanto que na janela ao lado o caixão era mostrado. Acervo de Renato Casimiro e DANIEL WALKER Memorial Padre Cícero Fundado em 1988, o Memorial Padre Cícero é administrado por fundação de mesmo nome. Fica no bairro do Socorro e tem arquitetura com influência brutalista. Passou por diversas reformas, a última encerrada recentemente, com reinauguração realizada em março passado. O Memorial também reúne objetos que pertenceram ao Padim, destaque para a biblioteca particular. "É um acervo bastante diverso, que vai desde livros de línguas estrangeiras e literatura, catecismos, livros de música, até livros de medicina, que acreditamos ser um tema de interesse particular do Padre Cícero. Recentemente trabalhamos com cartas de 1910 e 1911 de romeiros endereçadas ao padre, e um assunto que se repete bastante é o pedido de conselhos médicos, de remédios ou chás", afirma a bibliotecária Thalyta Alencar. Aberto de segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 17h, entrada gratuita. Casarão do Horto Construído no ponto mais alto de Juazeiro do Norte, Casarão do Horto era uma casa que permitia ao Padre Cícero descansar distante do movimento no casarão do centro. Foi transformado em museu, com destaque para as esculturas em tamanho real, reproduzindo o Padre Cícero sentado à mesa. A casa tem paredes e corredores revestidos por ex-votos, de fotografias a vestidos de noiva, todas lembranças de graças atribuídas à intercessão dele. É administrado pela Ordem dos Salesianos. Aberto todos os dias das 7h às 17h, com entrada gratuita. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará: '